Martagão é responsável por metade das cirurgias cardíacas feitas em crianças na Bahia

Nos últimos três anos, o Martagão Gesteira registrou um crescimento no número de cirurgias cardíacas realizadas. Dados do Ministério da Saúde dão conta de que o hospital é responsável por metade das cirurgias cardíacas feitas em crianças na Bahia, considerando a faixa pediátrica do SUS no estado. Para a coordenadora do Serviço de Cardiologia do hospital, a cardiologista pediátrica Mila Simões, o quantitativo representa um avanço do Martagão não só pela porcentagem atingida, como também pelo aumento da complexidade dos pacientes abordados. No ­final das contas, são cada vez mais crianças com problemas de saúde tendo acesso a atendimento de saúde de qualidade. Veja entrevista com a especialista sobre o tema:

Este número é alto para um único hospital? O que esse quantitativo significa para o Martagão?

Esse número é muito alto. Dados do Ministério da Saúde consideram um centro cirúrgico como um centro de referência em cardiologia pediátrica quando realiza em torno de 120 cirurgias por ano. Até 2016, não conseguíamos atingir esse objetivo. Em 2017, atingimos cerca de 120 cirurgias. Em 2018, operamos 176 crianças e, em 2019, mais de 200 crianças, mostrando o crescimento do serviço. Além do quantitativo, o mais importante é o aumento da complexidade. Sabemos do número de dias que essas crianças ficam esperando uma regulação. Crianças nascem com cardiopatias graves. Elas não têm condições de ir para casa e ficam na tela de regulação esperando 10, 15, às vezes, 30 dias por uma vaga de cirurgia cardíaca. Quanto mais tempo ficam esperando, a mais complicações elas estão sujeitas e maior o risco cirúrgico. Sendo assim, o crescimento da cirurgia cardíaca pediátrica do Martagão foi importantíssimo para ajudar essas crianças portadoras de cardiopatia congênita, visto que a rede de saúde não é suficiente para dar conta do número de cirurgias cardíacas que o Estado precisa.

Qual a situação dessas crianças que ficam na tela de regulação?

No momento em que cada serviço do Estado diagnostica uma criança com cardiopatia que necessita de intervenção cirúrgica, ela é colocada numa lista única para regulação para um serviço que realize o procedimento. São crianças que não podem ir pra casa e muitas vezes dependem de uma medicação para permanecer vivas até a cirurgia. A grande maioria está dentro de uma UTI pediátrica ou neonatal, esperando uma vaga. São crianças realmente em condições críticas, que quanto mais tempo aguardam acabam tendo sua condição clínica deteriorada. Para se ter noção, nos grandes serviços fora da Bahia, essas crianças, no serviço privado, nascem dentro do hospital que vai fazer a cirurgia, mesmo que não seja uma maternidade. Dessa maneira, a criança tem um tempo de espera menor para a cirurgia, reduzindo as complicações perioperatórias.

 

Atualmente o Martagão realiza 200 cirurgias cardíacas por ano. Como isto é feito?

 Sim. A gente realiza cerca de 20 cirurgias por mês. Temos cinco turnos cirúrgicos por semana e três equipes de cirurgia cardíaca. Além disso, temos uma equipe de hemodinâmica, responsável por realizar os cateterismos cardíacos pediátricos, tanto os diagnósticos que são indispensáveis para a realização de algumas cirurgias, quanto os terapêuticos, nos quais a gente evita uma cirurgia cardíaca.

A que a senhora atribui o crescimento no número de cirurgias cardíacas e na complexidade delas?

Frente à necessidade da rede diante do déficit de leitos para cirurgia cardíaca pediátrica, vimos que era necessário ajudar e continuar crescendo. Sempre foi um interesse do Martagão que esse crescimento acontecesse. Mas, para ocorrer, precisávamos de capacitação. Quando assumi a coordenação em 2017, ­fizemos uma capacitação geral e, progressivamente, fomos atingindo essa melhora tanto de assistência dentro do centro cirúrgico, quanto de assistência multidisciplinar dentro da UTI, para que pudéssemos crescer em complexidade. Tínhamos equipes cirúrgicas capacitadas, mas a cirurgia cardíaca não depende apenas delas. Depende de um diagnóstico pré-operatório preciso, de uma qualidade de assistência, desde a enfermaria da pediatria à cardiopediatria, equipes de anestesistas capacitados para realizar cirurgia cardíaca, e de uma UTI pediátrica e neonatal experiente. Cirurgia cardíaca pediátrica é muito complexa, precisamos de toda equipe multidisciplinar conhecendo as peculiaridades do paciente pré e pós operatório, para que o tempo de abordagem seja mais rápido e preciso. Isso só adquirimos com capacitação e experiência da equipe.

Quais são os principais tipos de doenças que compõem esse dado de cerca da metade de todas as cirurgias cardíacas feitas pelo Martagão?

A cardiopatia congênita é uma malformação na estrutura do coração. As crianças que têm, já nascem com ela. Não temos nenhuma causa específica desse problema durante a gestação. Na maioria dos casos, são mutações genéticas que não conseguimos prever. Crianças que têm irmãos com cardiopatia congênita têm um risco aumentado em torno de 10% de desenvolver alguma cardiopatia. Há alguns vírus que podem causar, mas são raros. Na maioria das vezes, durante a formação da estrutura do coração, há uma mutação genética que leva ao desenvolvimento da cardiopatia. Há mais de 200 tipos descritos na literatura. Mas nem todas são cirúrgicas. Há algumas malformações benignas, que a criança se desenvolve normalmente e que muitas vezes não precisa operar. Há também as graves, que chamamos de críticas do período neonatal, quando é preciso adotar uma conduta cirúrgica imediata. Dados do Ministério da Saúde dão conta de que nasce 1 cardiopata a cada 100 nascidos vivos. É uma incidência muito alta. De todas essas cardiopatias, 85% delas são cirúrgicas. É muito alto o índice de cirurgia e esse é o principal tratamento das crianças com cardiopatia congênita. A grande maioria das medicações usadas serve apenas para manter a criança estável até o momento da cirurgia ou melhorar o prognóstico dela a longo prazo.

Cirurgia acaba sendo a única alternativa?

Na maioria das vezes, quando existe indicação cirúrgica, sim. Em raros casos, temos a opção de tratamento por cateterismo. Há um déficit nacional de centros com cirurgia cardíaca. O Ministério da Saúde ressalta que há seis estados do Norte e Nordeste que não realizam cirurgia cardíaca. Por isso a importância do Martagão.

Cirurgias cardíacas em crianças demandam equipamentos de alta tecnologia? Como está o Martagão nesse quesito?

Sim. Depende de alta tecnologia, de uma equipe muito coesa e, principalmente, depende de material de alto custo, com uma grande variedade. Muitas vezes temos dificuldade com relação à aquisição de materiais. Cada tipo de cirurgia cardíaca vai precisar de um material específico. Precisamos de materiais específicos e de alto custo no centro cirúrgico, para realização dos cateterismos, cirurgias cardíacas e o acompanhamento das crianças dentro da UTI. Precisamos de aparelhos de alta tecnologia para o diagnóstico, sendo indispensáveis os aparelhos de ecocardiograma e alta qualidade no tomógrafo. Estamos batalhando, por exemplo, para o sonho de conseguir uma ressonância cardíaca.

Quais os desafios que o hospital enfrenta hoje para ampliar este quantitativo das cirurgias cardíacas?

Sabemos que o Martagão cresceu muito e que precisamos de mais vagas de UTI. Além disso, há o próprio crescimento natural. A evolução de um serviço de cirurgia cardíaca para operar ainda mais a alta complexidade depende também da ­fidelização dos seus profissionais. Quanto mais experientes eles ­ficam, mais o serviço vai amadurecer. Isso é adquirido com o tempo. A escola da vida é que faz com que a performance daquela equipe se torne melhor e mais coesa com o passar do tempo. Operando cada vez mais, vamos melhorar mais, aprimorar nossos resultados. E, num futuro breve, esperamos poder fazer transplante cardíaco pediátrico.